Políticas de reconhecimento

João Manuel de Oliveira

 

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Interessante como as políticas do privilege checking (checkagem de privilégio) e do essencialismo estratégico para criar consciência da subalternidade  parecem ser geradas por forma a interromper, parar e congelar os atos discursivos, os atos de linguagem e as reinvindicações por outras identificações. Conheço várixs pessoas que se preferem não ser lidas como cis e têm problemas com essa identificação. Eu incluído, até por ter problemas com quase todas as hetero-identificações onde querem que eu me encaixe. Prefiro não. O que noutras políticas podia ser lido como uma reivindicação de um outro espaço, como muitas de nós fizemos e fazemos quando falamos de uma ideia de mulheres ou de homens onde não cabemos. Há identidades onde temos que dizer que não cabemos e não temos que caber. O que não quer dizer que não existam determinadas posições face a determinadas normas. Por isso, prefiro falar como Viviane Vergueiro em cisnormatividade, um nome para as normas que regulam o cistema que privilegia pessoas não trans*, que são identificadas na posição cis.

Contudo, há uma relutância em passar de uma posição a uma identificação. Não se é obrigada a caber assim como se nos perguntarem se achamos ou queremos que as pessoas trans ou queer caibam em determinadas coisas diremos que não, não têm que caber. Dou um exemplo: espaços não mistos. Nunca sei como me posicionar porque não entendo muito bem a lógica de que porquê uma determinada pessoa aparentemente tem uma experiência mais parecida comigo ou porque me sentiria mais segurx com uma pessoa com essa semelhança. O problema pode ser de excessiva recusa da identidade, que tenho, mas também pode ser sinal, e quero acreditar que é, de um desconforto político com determinadas políticas de representação.

Uma política de representação que vise terminar com o direito de alguém de se ver de uma outra maneira que não esteja contido na fixidez identitária hetero-atribuída ou que seja fora da sua posição habitual pode ser um ato de violência e um ato de interromper discursos e de não lhes dar espaço de proliferarem. Isto não isenta o reconhecimento de  que grupos sistematicamente violentados não estejam a ser constantemente vítimas de violência. Mas será que queremos que o ativismo trans*, feminista, LGBT, funcionem como uma marca, um limite ao discurso de identidades de outrxs? Isso não os retira automaticamente desse espaço violento. As pessoas não trans reconhecerem o privilégio que lhes dá a sua posição num cistema cisnormativo não tem necessariamente uma decorrência na posição das pessoas trans. Fará dessas pessoas cis serem mais bem vistas pela comunidade trans, mas estamos a fazer política para isso? Ou antes estamos interessadxs em contribuir para mudar estruturalmente a posição das pessoas trans?

E voltar a olhar para imensas heterogeneidades dentros destas gavetas. trans*, com asterisco, para dar conta disso. cis ou na minha preferência e cisnormatividade também não é bloco único. Ativismo é política, na minha opinião. E política é reconhecer diferentes narrativas, diferentes caminhos, diferentes histórias, diferentes políticas. Ser-se estratégico, sem se ser essencialista. Não ser apenas o que um determinado espaço, um privilégio ou uma norma diz que és. Então, tenho problemas com os efeitos secundários deste priviledge checking, que parecem produzir por via de uma confissão e de um bater com as mãos no peito, compungidas, pessoas aparentemente mais conscientes do seu privilégio. O que é que isso muda na vida das pessoas trans*? Aquiêscência? Em que é que esse saber qual é o seu privilégio pode magicamente mudar a posição num sistema violento que mata as pessoas trans* constantemente? Pode fazer algumas sentirem-se melhor, mas não servirá esse sistema de alibi para paralisar ação política entre cis muito conscientes, mas que por efeito dessa consciência, dão palmadinhas na costas das pessoas trans* e desejam-lhes boa sorte?

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